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Nelson Motta
SALVADOR – Aqui se acredita que o Carnaval baiano é o melhor porque é o maior e mais democrático, por se espalhar por toda a cidade e ser igualmente desfrutado por dois milhões de pobres e ricos, brancos e pretos, jovens e velhos de todos os sexos.
Em relação a um sambódromo com 60 mil pessoas, uma boa parte abrigada em camarotes luxuosos e exclusivos, a folia baiana é mesmo o esplendor da democracia carnavalesca, essa invenção brasileira.
Ao contrário da passarela do samba, nos circuitos dos trios elétricos, tanto os vips, abonados e turistas dos camarotes, como os sem-nada que estão do outro lado da corda, na calçada ou na “pipoca“ atrás do trio, ouvem, cantam e dançam com os mesmos artistas que passam oferecendo alegria, diversão e arte para todos.
A Bahia também avança na diversidade musical: Gilberto Gil trouxe a bateria da Grande Rio e o samba carioca com Zeca Pagodinho e Alcione, Daniela Mercury cantou com o gaitista gaúcho Renato Borghetti e a cantora lírica Cristina Sorrentino, o inglês Fatboy Slim, um dos maiores DJs do mundo, misturou eletrônica ao batuque, Carlinhos Brown homenageou os 100 anos do frevo pernambucano. Nos outros circuitos da cidade o povo se diverte com sambas, marchinhas e blocos afro. O carnaval baiano acreditem, tem até axé.
Claro, não há no mundo musical nada comparável a uma grande bateria de escola de samba carioca, mas ouvir um mesmo samba-enredo, às vezes bem chato, cantado durante 80 minutos na Sapucaí, dá alguma inveja da diversidade baiana.
A democracia carnavalesca só não chegou ao crime: em sete dias, o pessoal dos hotéis e camarotes pode se divertir em paz, mas foram 60 os arrastões em ônibus, quase todos na periferia pobre, onde ocorreram 19 das 21 mortes.
RIO DE JANEIRO - Se um mensaleiro, um sanguessuga, um aloprado ou um Zé Dirceu dizem que o Legislativo foi desmoralizado e destruído pela grande mídia dominada pelas elites econômicas, é compreensível, eles querem salvar a pele, defender sua boquinha, têm o direito de espernear. Mas, claro, ninguém acredita neles, nem eles mesmos.
Mas se o provável futuro ministro da Justiça Tarso Genro, um homem honesto que não está ameaçado por nenhuma acusação, é quem está dizendo - e acreditando – certamente vamos ter muitas saudades de Márcio Thomaz Bastos e de sua Polícia Federal republicana.
Se o comandante-em-chefe do aparelho judicial e das forças de segurança pública desconfia que as ladroagens e os escândalos que levaram aos tribunais um terço da Câmara são fruto de insidiosa campanha da grande mídia em defesa de interesses inconfessáveis, como diz o provável futuro ex-ministro Waldyr Pires, só nos resta rezar.
Se essa grande mídia foi capaz de tal torpeza, então deve passar a ser o foco da investigação sobre o abominável crime de lesa-pátria que é desmoralizar e destruir o Legislativo.
A pergunta não é mais quem pagava, quem recebia, quem mandava e quem sabia, mas por que a grande mídia escolheu essa legislatura, logo essa, como alvo de sua conspiração anti-patriótica ? Para atingir o presidente Lula? Para acabar com o Partido dos Trabalhadores? Isso tem que ser investigado a fundo.
O procurador-geral da República deve estar em pânico, temendo ser arrolado como cúmplice na conspiração, por ter denunciado dezenas de parlamentares ao Supremo Tribunal Federal.
A melhor hipótese é que o provável futuro ministro, para tentar garantir a vaga, tenha falado só para agradar Lula. A pior é que a justiça seja mesmo cega.
RIO DE JANEIRO - No primeiro carro alegórico, jogando beijos para a multidão, vem o grande líder bolivariano Hugo Chavez, em seu uniforme multicolorido, com seus alamares, borlas e dragonas dourados, sob o imenso quepe e com o peito pesado de medalhas, cercado por seguranças fantasiados de astecas e lindas morenas de seios de fora. A bateria explode, a torre de petróleo cenográfica lança jatos de chocolate, a massa delira e se lambuza, como se fosse melado comido pela primeira vez.
Logo atrás, no alto de uma alegoria menor mas não menos luxuosa, cercado por imensas plantas de coca cenográficas e por belas índias semi-nuas, com a segurança em trajes típicos dos Andes, o grande líder cocaleiro Evo Morales acena para o povo, com sua touca multicolorida lhe cobrindo as orelhas e seu casaco de pele de lhama. Os canhões do carro despejam chuvas de folhas de coca sobre o público, todo mundo ligadão até o “grande amanhã” chegar.
A América Latina finalmente começa a sua integração pelo caminho da festa, especialidade dos hermanos brasileiros. No refrão da salsa-enredo, as congas e timbales repicam e todos gritam, de punhos fechados, “ Pátria o muerte ! “. Depois o refrão muda para “ Socialismo o muerte ! “, as mulatas rebolam, as índias se sacodem, de mãos dadas e braços para o alto todos gritam “ Revolución o muerte ! “
Embora carnaval não combine muito com morte, o desfile imaginário é a perfeita integração entre fantasia, alegoria e ideologia que Chavez e Morales representam e que atrasa e empobrece as Américas cada vez mais, sob inspiração do fantasma de Fidel e seus ideais de ordem e progresso.
O enredo "O mundo mágico do perfeito idiota latino-americano", versão 0.7, começou a ser ensaiado esta semana no Rio.
RIO DE JANEIRO - Uma maravilhosa história de vida, superação e glória, narrada com paixão e elegância, “ Roberto Carlos em detalhes “ é uma das melhores biografias de artistas brasileiros já escritas. E logo do maior deles, do mais querido, do Rei. Todos concordam, a crítica, os leitores e os fãs: é um grande livro. Quer dizer, quase todos.
Os advogados de Roberto e da família de Maria Rita entraram na Justiça com uma ação cível e outra criminal pedindo a interdição do livro e indenização por danos morais.
Só Roberto pode saber o que seu coração sente ao ler, em tantos detalhes, a sua inacreditável história de vida e arte, com suas dores e delícias, suas perdas e conquistas. Mas para nós, que apenas o amamos, admiramos e respeitamos, é impossível entender o que possa ofender a sua honra nesse tributo emocionado ao seu talento e à sua grandeza.
Também é difícil compreender por que só agora, depois que o livro se tornou um grande e merecido sucesso, que passa de mão em mão, que está na internet, que é história, ele quer tirá-lo de circulação.
Para Roberto, a sua vida é um patrimônio seu e só ele pode contá-la, como e quando quiser. Mas ela não é um livro, é o tema da obra de um escritor. É claro que não é dinheiro que move Roberto, como também não foi por dinheiro que um professor de Niterói trabalhou quinze anos na construção de um painel monumental sobre seu grande ídolo. Foi por amor.
Se Roberto considera errado ou impreciso algum detalhe – afinal, o autor nunca conseguiu entrevistar seu biografado - ou invasiva a exposição de algumas intimidades de pessoas queridas, irrelevantes para a grandeza do livro, o autor ficará muito feliz em fazer as correções numa nova edição.